11.5.12

Eletrogastrocardiograma

Acho que todo mundo já ouviu alguma história de alguém que achava que estava tendo um ataque cardíaco, mas no fim das contas tinha apenas gases. Deve ser uma situação um tanto desagradável, humilhante até. Essa confusão cardiogástrica, contudo, não termina sempre em flatulência. Não é que outro dia eu estava certo que estava com uma azia braba, mas uma moça muito bonita veio a mim e eu vi que era amor, mesmo?!

7.5.12

Naufrágio

Segunda-feira é o amigo natimorto de Robson Crusoé.

19.3.12

Necrópole

Um dia um deles pulou o muro e não voltou mais. Foi então que os mortos descobriram que podiam, sim, fugir do cemitério. Às vezes um ou outro voltava para praticar jogging ou ler um livro embaixo de uma árvore apodrecida, mas era raro ver defunto por lá. O cemitério virou, então, ponto de recanto - todos os vivos da cidade eventualmente se cansaram de tanto morto andando pelas ruas e o cemitério era o lugar mais silencioso que se podia encontrar.

Diferente do que o desavisado possa pensar, a cidade inteira ficou muito mais viva quando os mortos é que iam trabalhar e pegar trânsito na hora do rush e os vivos é que ficavam no cemitério, hedônicos e antivitais, como fossem duas condições indissociáveis...

7.3.12

Amplexo

Machos de algumas espécies de sapos quando se apaixonam por uma fêmea pegam-na por trás, abraçam-na e mantêm-se abraçados por até duas semanas, até que ela o aceite para ser seu parceiro. Nessa minha explicação deste fenômeno há uma mentira, e uma apenas: Sapos não se apaixonam (os Sapos Suicidas que o digam).

Há algo curioso nesse processo que ao meu ver evidencia a teoria evolucionista do velho Darwin, mas aponta uma possível singularidade não antes investigada - sapos talvez sejam, não os macacos, nossos descendentes diretos. Além da tendência anurossuicida a que todos os homens são passíveis, mas quase todos renegam, penso que na verdade o que mais nos aproxima dos amigos anfíbios é que dependemos de amplexos para que o sentido, o objetivo, nos venha. Mais que o menino que não larga a menina enquanto não receber o sim ou o não, é natural que abracemos a vida por trás até que ela nos aceite.

O sucesso da nossa espécie em relação às espécies dos sapos se deu por alguns fatores adquiridos e selecionados - telencéfalo desenvolvido, polegar opositor, bipedismo e, claro, a capacidade de se apaixonar.

11.2.12

Dança dos Cisnes

Os canais da cidadezinha holandesa congelaram-se e muito bonito era ver as pessoas deslizando pelo gelo em seus patins. Mas essa alegria era breve, interrompida pela agonia (digo assim para que não me maldigam os amantes dos animais - em verdade, divertia-me horrores) dos cisnes, bichos tão feios fora d'água quanto lindos dentro dela. Pois é que eles entravam em uma dança louca e inútil, em tentativa de tornar água o gelo duro.

E via-se, no jeito de balançarem seus pescoções desajeitados, no movimento ritmado de suas patas e asas, ou melhor, ouvia-se, os cisnes dizerem 'Pour Dieu! Qu'est-ce que s'est passé avec l'eau?', assim mesmo, em francês, porque todo mundo sabe que os cisnes pensam em francês (coitada da rainha da Inglaterra!)...

17.1.12

Automundo conversível

Os Sapos Suicidas são aqueles que pululam deliberadamente pra debaixo do seu carro, resultando em autoesmagamento. Pois há algo de muito engraçado nos Sapos Suicidas - aliás, mais em como eu me sinto em relação a eles. Eu os odeio! Mas sabem por quê? Porque gosto tanto de sapo que fico P da vida quando mato um, ainda que por culpa exclusiva dele. De tanto amor, ódio. É o único tipo de ódio que eu conheço, e é o único tipo de ódio que acho que devia existir. Infelizmente pensar em esperança é nada mais que colocar-me embaixo das rodas do automundo conversível do velho Deus.

Deus nos odeia por amor? Qual nada, Deus não nos vê, Deus não nos sente, Deus não se importa - e estamos tentando entrar debaixo da roda dele há muito tempo, e tempo em excesso, com a pretensão maluca de sermos vistos antes de esmigalhados.

7.1.12

Amor fati

Existe uma rã que no alto do inverno canadense enterra-se em meio ao húmus e à terra congelada e hiberna. Acorda somente quando o inverno vai embora. Ela não é o único animal capaz de morrer pra reviver depois, mas quiçá seja o único anfíbio (se meu interesse pelos bichos fosse mais que um interesse desprendido, afirmaria com certeza). Bichos interessantes, os anfíbios. A respiração cutânea me fascina, mas me fascinaria muito mais se eles pudessem sentir cheiros pela pele, também. Acho que a evolução privou-os dessa habilidade inútil, assim como privou a nós da bioluminescência.

Voltemos à rã canadense: o legal dela é que ela é uma rã - pula, come insetos, nada no lago - como qualquer outra, a não ser pelo fato de morrer por uns meses antes de voltar à vida. A morte pra esse anuro é anual, e nada a preocupa menos. A rã é forte, não há dúvida, mas o que não sabe é que ela ao congelar-se perde muito de si mesma. Suporta, tão somente, tudo que a aflige; dissimula-se.

Muito mais impressionante que a rã é um fungo que foi achado nas paredes da usina de Chernobyl. O fungo não fez como os ucranianos e os russos das redondezas (ou, que fique claro, como a rã que tem medo de frio), não fugiu pra cidade mais longe. O fungo se alimentou da desordem e cresceu.

A diferença, então, é essa: os seres humanos adoram imitar a rã canadense quando deviam imitar é o fungo comedor de radioatividade, quando deveriam dizer somente sim, inclusive ao frio mortal do inverno canadense.