2.2.10

Morte à Poesia!

Não sei, me cansei dessa Poesia edificada, dessa Poesia com forma de minhoca. Achei que já tinham acabado com isso, mas me parece que não. Me parece que ela tenta sobreviver, subindo as paredes. E quando leio uma - sim, apesar de tudo leio, me é inevitável -, leio de baixo pra cima. Esse é o jeito que se deve ler.

Desvios à parte, anseio a morte da Poesia. Mesmo já estando nascida, façamos nascer a Proemia.

1.2.10

Insistência

Uma frutinha, pendurada em seu galho, recusava a soltar-se. Vento, chuva, bichinhos chacoalhando sua árvore, nada. Nada a fazia se soltar. Até que ficou madura demais e não aguentou. Caiu e rolou, rolou, rolou até ser só semente. Não queria mais sair dali, lugar em que enraizou-se. Cresceu, e nem vento nem chuva nem ninguém podia fazê-la largar dali.

E no dia do Apocalipse, deus, por ele mesmo, teve de descer à Terra e dar fim àquela árvore. O mundo queria acabar, mas a planta - com todas suas frutinhas - não queria deixar.

21.1.10

A menina e o lobo

A Lili estava com medo de entrar na floresta, e nada que a mãe falasse a faria ir. - Não, mamãe, tem um lobo lá! Nisso, chega um menino pouco maior que Lili e clama: - Não se preocupa, o lobo tava lá, mas eu dei um pau nele e ele fugiu!

E vai Lili, feliz da vida, entrar no bosque.

10.1.10

Desconstrução

O peixe - não aquele, outro - cansou do perfunctório e decidiu se aventurar. Nadou contra a corrente com força e determinação. Por revés, destino, ou determinação do Escritor, entrou pelo esgoto. Mas não havia motivo que o fizesse desistir - afinal, era esse mesmo seu objetivo: conhecer. E foi se apertando cada vez mais na água imunda do encanamento de uma casa. Até que entalou, e permaneceu entalado até que morresse. Seu cadáver era tão humano que o dono da casa culpou a Deus quando foi se aliviar e teve seu sábado inundado.

7.1.10

A boca e a testa

As lembranças mais insignificantes vêm em palavras. Os pensamentos mais medíocres vêm em palavras. Tudo que importa é feito em fotografias. Aliás, o que é uma palavra se não um milésimo de uma imagem? E sempre que alguém abre a boca pra vomitar as ditacujas, não ouço, não reflito. Porque da boca pra fora e da testa pra dentro, não há coisa igual.

4.1.10

Crime perfeito

O peixe queria voar. A borboleta queria nadar. Decidiram trocar de corpos. O peixe, vestido das asas e cores da borboleta, voou e voou, sentindo a liberdade do azul do céu formar um degradê com a paixão e o desejo de ir cada vez mais ao infinito. A borboleta, no corpo do peixe, saltou da água e comeu seu corpo antigo, sem titubear. E decidiu virar peixe-voador.

2.1.10

Do mau e do entendido.

'Era forte, nem tanto. Era um tanto bonito, dos cabelos às pernas. Tinha um coração grande; nunca tinha machucado ninguém, não por vontade. Se uma palavra o definisse, seria 'altruísmo'. Talvez 'sacrifício', se não as considerasse sinônimas.
Viu um homem em cima de uma mulher, a mulher parecia gritar. Estava machucada, com certeza. Não olhou duas vezes: tirou o homem de cima dela à força e a carregou a um lugar seguro. Voltou-se ao homem e deu-lhe uma surra. Não contente, entregou-o às autoridades e fez com que fosse condenado por crime sexual.
30 anos depois, recebeu flores e nelas um cartão: "Eu era inocente".

...as flores eram do homem, que era, mesmo, inocente.'

Mas o curioso escritor, mais uma vez, deixou a história à gaveta. Não tinha lá um desfecho interessante.