Tenho muita inveja daqueles versos 'eles passarão, eu passarinho'... Como queria tê-los escrito antes do Quintana! Mas tudo bem, acho que isso só faz de mim mais passarinho.
Passarinho não. Pomba. Faz de mim uma pomba. Vejo sempre uma pomba que vive do farelo que as outras pombas acham. Não sei bem quando ou como começou o ciclo, mas ela consegue roubar porque é maior e é maior porque rouba. Mas não, as outras pombas nem ligam muito. Adaptaram-se, pois é disso que se faz a natureza. Então as mirradinhas tratam de achar só farelo de pão enquanto a gorda está por perto. Quando não há mais gorda roubalhona, aí então é que elas acham tapioca, salsicha, salmão, caviar! Aí é aquele caso de duplo ganho - a pomba gorda continua sendo gorda e roubalhona, pensando que é a melhor, e as outras continuam sendo mirradinhas, mas comendo bem.
Pois vendo agora, vejo que você pode entender que comparei-me à pomba gorda e Quintana às pombas magras. Não, não, repito: eu sou uma pomba, ele é passarinho. É como dizem aqueles versos meus:
Todos estes que aí estão
atravancando meu caminho.
Eles passarão.
Mario passarinho.
Eu pomba.
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6.9.11
17.8.11
Disperdício
Um amigo meu, desses a quem todo mundo insiste em chamar de poeta - eu não ouso -, disse que a cada poema que escreve deixa de escrever 3 ou 4. Pois eu, e sem me achar melhor que ele (aliás, pelo contrário, me acho muito mais gastão), quando escrevo um poema deixo de escrever todos os outros.
20.6.11
Eu
Odeio quando os escritores fazem referências difíceis de compreender. Mas eu também faço! Tem a ver com narcisismo, disse a um amigo outro dia. Tem coisa mais narcisista que se esconder dos outros?!
Eu era fera no jogo de esconde-esconde, quando pequeno. Hoje, quando vou publicar um texto, tenho que relê-lo à procura de uma porção de 'eus' que saí espalhando por aí. Mesmo assim, quando vejo um 'eu' desnecessário, fico procurando motivo pra deixá-lo ali. Porque eu quero me esconder - mas me apagar para sempre?! Deus me livre!
Eu era fera no jogo de esconde-esconde, quando pequeno. Hoje, quando vou publicar um texto, tenho que relê-lo à procura de uma porção de 'eus' que saí espalhando por aí. Mesmo assim, quando vejo um 'eu' desnecessário, fico procurando motivo pra deixá-lo ali. Porque eu quero me esconder - mas me apagar para sempre?! Deus me livre!
10.6.10
Do fim de todos os problemas
E a moça disse que eu devia andar com um bloquinho pra anotar todas as boas ideias que tivesse. Deus me livre! Se as melhores ideias não se perdessem, o que seria do mundo?! Seria um caos - pela falta de caos. Porque se todas as boas ideias fossem colocadas em prática, o mundo se resolvia - e, sinceramente, quem aí (ou aqui) quer isso?!
Eu precisava era mesmo de uma navalha pra cortar minha cabeça e não considerar mais solução alguma.
Eu precisava era mesmo de uma navalha pra cortar minha cabeça e não considerar mais solução alguma.
23.2.10
2.1.10
Do mau e do entendido.
'Era forte, nem tanto. Era um tanto bonito, dos cabelos às pernas. Tinha um coração grande; nunca tinha machucado ninguém, não por vontade. Se uma palavra o definisse, seria 'altruísmo'. Talvez 'sacrifício', se não as considerasse sinônimas.
Viu um homem em cima de uma mulher, a mulher parecia gritar. Estava machucada, com certeza. Não olhou duas vezes: tirou o homem de cima dela à força e a carregou a um lugar seguro. Voltou-se ao homem e deu-lhe uma surra. Não contente, entregou-o às autoridades e fez com que fosse condenado por crime sexual.
30 anos depois, recebeu flores e nelas um cartão: "Eu era inocente".
...as flores eram do homem, que era, mesmo, inocente.'
Mas o curioso escritor, mais uma vez, deixou a história à gaveta. Não tinha lá um desfecho interessante.
Viu um homem em cima de uma mulher, a mulher parecia gritar. Estava machucada, com certeza. Não olhou duas vezes: tirou o homem de cima dela à força e a carregou a um lugar seguro. Voltou-se ao homem e deu-lhe uma surra. Não contente, entregou-o às autoridades e fez com que fosse condenado por crime sexual.
30 anos depois, recebeu flores e nelas um cartão: "Eu era inocente".
...as flores eram do homem, que era, mesmo, inocente.'
Mas o curioso escritor, mais uma vez, deixou a história à gaveta. Não tinha lá um desfecho interessante.
24.12.09
Construções imagéticas
Com a vontade bigorna de passar o tempo fiquei comigo refletindo: Leio um livro ou escrevo um livro?! Então li o livro que escrevi na sacada, no verde e no azul. Difícil entender. Difícil. Até porque o livro que li - e escrevi, não nesta ordem necessária - estava em braille, e meus olhos penavam a procurar os pontinhos pra tocar.
9.12.09
Breve espaço-tempo
Me perguntaram por que escrevo em tão curtos espaços. Faço isso porque quando escrevo, sinto que estou emprestando algo ao papel, com a certeza de que nada será devolvido. E publico só por não ter mais fôlego - a obra continua, e continuará até ser póstuma. Mas tudo bem, o que importa é o que fica: a quintessência...
...ou os quintanares...
...ou os quintanares...
8.12.09
O conceito que não se sabe
'É um cabra nervoso, esse Arlindo. Tenho que tomá cuidado. Num sei do que é capaz esse mardito. Mas memo assim tenho que í, né... Porque se num fô, os cabra tudo da cidade vai dizê que eu num sô homi merecedô. E eu sô, sim. Sô cabra macho, sempre fui. Meu véio pai me ensinô desse jeito, e é desse jeito que eu vô continuá sendo. Vô prová pra todo mundo quem é que manda. Que venha o Arlindo, vô acabá com esse mardito. Ah, se vô. E num vai sobrá pedacim dele pra contá história.'
E o curioso escritor não sabia se tinha, com isso, feito literatura.
E o curioso escritor não sabia se tinha, com isso, feito literatura.
30.11.09
O que foi perdido
'Desde pequena sonhava em ser freira. Achava tão bonita aquela roupa preta e branca... Foi crescendo, ela e o cabelo, e aprendendo um pouco sobre santidade. Escola de freira, nenhum livro que não o Sagrado. Ao aniversário da maioridade estava andando no caminho de casa para a escola e foi puxada para um beco. Um homem de bigode ralo subiu a bata dela tão rápido e com tanta força que era certo que ele tinha experiência. Ela começou a gritar, e continuou a gritar durante, mas os gritos foram se transformando de dor e desespero para prazer e desejo. O meliante achou interessante, mas aí é que ela se virou e quis ficar por cima. E com uma força desproporcional ao seu jeito hóstio. O homem entrou em parafuso e se desvencilhou. Correu. Ela deixou a bata lá no beco, junto com os restos da sua santidade, e foi ao mar.'
E o estranho escritor agora pensava se tinha ofendido a alguém. Provavelmente... Por isso não publicou e esqueceu o trecho em uma gaveta.
E o estranho escritor agora pensava se tinha ofendido a alguém. Provavelmente... Por isso não publicou e esqueceu o trecho em uma gaveta.
27.9.09
Verdade indiferente
O amigo me pergunta:
-Acha mesmo que vão te ler?
O que não vão, amigo, é me entender.
-Acha mesmo que vão te ler?
O que não vão, amigo, é me entender.
26.8.09
O curioso escritor
Àqueles que desejam saber o porquê de ler minhas palavras, simplesmente não o façam. Não responderei e não ficarei mais agradável.
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