12.9.10

Amigo imaginário

O menino ia ver seus avós várias vezes ao ano. Suco de manga, cana do pé, goiabada. História na hora de dormir, assobio, piranha empalhada. Floripa era longe, mas era casa e era alegria.

Todavia um dia o menino cresceu um pouquinho demais e a melancolia que vem junto com o espichar chegou - mesmo que o espichar tenha sido pouco. Numa das visitas à Ilha, seu avô percebeu sua solidão e teve a ideia mais maravilhosa de todas.

- Vem aqui, vou te apresentar um amigo! Esse aqui é o Juquinha.

O menino sabia que não existia ninguém no mundo que se chamasse Juquinha, mas se abriu à possibilidade. Os dois ficaram amigos, brincaram bastante juntos. Mas na hora do menino voltar pra São Paulo, Juquinha ficou.

Não aceitavam dinheiro imaginário na Transbrasil.

2.8.10

Frase solta

Desculpem-me os revolucionários, mas prefiro chorar de cebola a chorar de gás lacrimogêneo.

14.7.10

A aposta

Ah, se o menino soubesse que a única arma contra a monotonia não é veneno nenhum, não é coisa complicada. Se ele soubesse que a única coisa que poderia fincar de vez um garfo no tédio e ajudá-lo a tomar um gole grande de vontade fosse feito só de dois olhos e um sorriso, o menino seria deus. Mas o menino não quer ser deus. Semideus tampouco. O menino quer poder fechar os olhos à noite e sonhar só com ela -

- deuses descartam os sonhos e o sono como se fossem uma mão ruim num jogo de pôquer.

28.6.10

O esforço de uma vida

E de súbito ele pensou o que devia fazer. Era óbvio - e era óbvio há tempo, sem ele ter percebido. Sua vida não seria gasta - como aquela daquele outro havia sido gasta - para juntar explosivos, para destruir... Passaria seu tempo construindo.

Passados anos e anos de estudos na genética, nas ciências biomoleculares, na química orgânica, ele chega ao resultado esperado.

Borrifou sua substância no mundo inteiro com seu avião monomotor e agora todas as Damas da Noite cheiravam de dia, também.

10.6.10

Do fim de todos os problemas

E a moça disse que eu devia andar com um bloquinho pra anotar todas as boas ideias que tivesse. Deus me livre! Se as melhores ideias não se perdessem, o que seria do mundo?! Seria um caos - pela falta de caos. Porque se todas as boas ideias fossem colocadas em prática, o mundo se resolvia - e, sinceramente, quem aí (ou aqui) quer isso?!

Eu precisava era mesmo de uma navalha pra cortar minha cabeça e não considerar mais solução alguma.

13.5.10

A história, não a estória

Era uma vez um cachorrinho. Nem era pequeno ou fofo, mas não havia ninguém que conseguisse proferir sua condição sem empregar o diminutivo. Portanto, era um cachorrinho. Voltemos - era mui esperto, na medida da possível esperteza canina. Um dia, enquanto uivava para a Lua - qual o problema de uivar pra Lua com o sol à pino?! - percebeu num gato a intenção de fazer mal a um passarinho. Deu um coça no gato e voltou a uivar. O passarinho, que já tinha percebido a situação, voou meio desengonçado e como ventava bastante, acabou na direção do cachorrinho. Furou seu peito e os dois morreram - a ave sem, mas o mamífero cheio de sofrimento.

Não se deve tirar nenhuma lição de moral, como nas estórias da tartaruga, da lebre, do pato feio ou da galinha, já que isso aqui não é estória, é história.

3.5.10

Da tempestade e da garoa

Os amores platônicos têm um quê de coisa dramática que me parece ser insuperável quando comparado aos quês dramáticos das outras emoções. Parece que toda a vida gira em torno do objeto de desejo. Mas só quando é platônico - todo mundo sabe que assim que se consuma, a graça se perde. Deus me livre! Quero é amor de pé no chão, amor terreno. Quero é paz, não quero essa tempestade me perturbando! Porque depois da tempestade, vem a calmaria, e no que diz respeito à alma humana, a calmaria quase sempre é indiferença.

Quero viver assim, com esse amor garoa, pra sempre - ou pra sempre que puder.