Os canais da cidadezinha holandesa congelaram-se e muito bonito era ver as pessoas deslizando pelo gelo em seus patins. Mas essa alegria era breve, interrompida pela agonia (digo assim para que não me maldigam os amantes dos animais - em verdade, divertia-me horrores) dos cisnes, bichos tão feios fora d'água quanto lindos dentro dela. Pois é que eles entravam em uma dança louca e inútil, em tentativa de tornar água o gelo duro.
E via-se, no jeito de balançarem seus pescoções desajeitados, no movimento ritmado de suas patas e asas, ou melhor, ouvia-se, os cisnes dizerem 'Pour Dieu! Qu'est-ce que s'est passé avec l'eau?', assim mesmo, em francês, porque todo mundo sabe que os cisnes pensam em francês (coitada da rainha da Inglaterra!)...
11.2.12
17.1.12
Automundo conversível
Os Sapos Suicidas são aqueles que pululam deliberadamente pra debaixo do seu carro, resultando em autoesmagamento. Pois há algo de muito engraçado nos Sapos Suicidas - aliás, mais em como eu me sinto em relação a eles. Eu os odeio! Mas sabem por quê? Porque gosto tanto de sapo que fico P da vida quando mato um, ainda que por culpa exclusiva dele. De tanto amor, ódio. É o único tipo de ódio que eu conheço, e é o único tipo de ódio que acho que devia existir. Infelizmente pensar em esperança é nada mais que colocar-me embaixo das rodas do automundo conversível do velho Deus.
Deus nos odeia por amor? Qual nada, Deus não nos vê, Deus não nos sente, Deus não se importa - e estamos tentando entrar debaixo da roda dele há muito tempo, e tempo em excesso, com a pretensão maluca de sermos vistos antes de esmigalhados.
Deus nos odeia por amor? Qual nada, Deus não nos vê, Deus não nos sente, Deus não se importa - e estamos tentando entrar debaixo da roda dele há muito tempo, e tempo em excesso, com a pretensão maluca de sermos vistos antes de esmigalhados.
7.1.12
Amor fati
Existe uma rã que no alto do inverno canadense enterra-se em meio ao húmus e à terra congelada e hiberna. Acorda somente quando o inverno vai embora. Ela não é o único animal capaz de morrer pra reviver depois, mas quiçá seja o único anfíbio (se meu interesse pelos bichos fosse mais que um interesse desprendido, afirmaria com certeza). Bichos interessantes, os anfíbios. A respiração cutânea me fascina, mas me fascinaria muito mais se eles pudessem sentir cheiros pela pele, também. Acho que a evolução privou-os dessa habilidade inútil, assim como privou a nós da bioluminescência.
Voltemos à rã canadense: o legal dela é que ela é uma rã - pula, come insetos, nada no lago - como qualquer outra, a não ser pelo fato de morrer por uns meses antes de voltar à vida. A morte pra esse anuro é anual, e nada a preocupa menos. A rã é forte, não há dúvida, mas o que não sabe é que ela ao congelar-se perde muito de si mesma. Suporta, tão somente, tudo que a aflige; dissimula-se.
Muito mais impressionante que a rã é um fungo que foi achado nas paredes da usina de Chernobyl. O fungo não fez como os ucranianos e os russos das redondezas (ou, que fique claro, como a rã que tem medo de frio), não fugiu pra cidade mais longe. O fungo se alimentou da desordem e cresceu.
A diferença, então, é essa: os seres humanos adoram imitar a rã canadense quando deviam imitar é o fungo comedor de radioatividade, quando deveriam dizer somente sim, inclusive ao frio mortal do inverno canadense.
Voltemos à rã canadense: o legal dela é que ela é uma rã - pula, come insetos, nada no lago - como qualquer outra, a não ser pelo fato de morrer por uns meses antes de voltar à vida. A morte pra esse anuro é anual, e nada a preocupa menos. A rã é forte, não há dúvida, mas o que não sabe é que ela ao congelar-se perde muito de si mesma. Suporta, tão somente, tudo que a aflige; dissimula-se.
Muito mais impressionante que a rã é um fungo que foi achado nas paredes da usina de Chernobyl. O fungo não fez como os ucranianos e os russos das redondezas (ou, que fique claro, como a rã que tem medo de frio), não fugiu pra cidade mais longe. O fungo se alimentou da desordem e cresceu.
A diferença, então, é essa: os seres humanos adoram imitar a rã canadense quando deviam imitar é o fungo comedor de radioatividade, quando deveriam dizer somente sim, inclusive ao frio mortal do inverno canadense.
3.1.12
Entupiu
O menino teve um problema no nariz, uma espécie de entupimento duradouro. Quando voltou a sentir cheiros, o primeiro a sentir foi o seu preferido - a Dama-da-Noite. Contudo, claro, muito mudou em seu olfato enquanto ele não funcionava. A Dama-da-Noite cheirava muito diferente, cheirava esquisito, mas ainda cheirava bem...
2.1.12
Eutanásia antecipada
Chegará o dia, e chegará em breve. Chegará o dia em que todos os bichos deixarão de procriar. Farão sexo, ainda, isso sim, mas não deixarão sua prole à sobrevivência. Pois é isso que teriam, se nascessem - sobrevivência, apenas. Se nascessem, seus filhotes estariam condenados a viver no meio de um mundo que não mais permite alegria, não mais permite o vôo, o salto, o surfe... Os bichos não querem isso pra ninguém! Sobreviver é muito pouco, isso nós, humanos, já procuramos saber. Há os que dizem que sobreviver é dádiva, é o lucro maior - Deus nos deu. Mas se eu, ateu; se eu, o Anticristo, quero é ir ao sentido oposto do Divino, que posso fazer se não querer Viver (com maiúscula e com todos os prazeres)?!
Nós, humanos, sabemos que sobreviver apenas é pouco, mas ainda assim teimamos em fazê-lo...
Pois sim, chegará o dia em que nós, humanos, vamos imitar aqueles bichos que optaram pela extinção. Deixaremos de procriar. Faremos sexo, ainda, mas não deixaremos nossos filhos à mera sobrevivência. Chamaremos esse altruísmo louco de eutanásia antecipada - puxaremos o fio antes do sofrimento da Vida. Infelizmente o faremos em um tempo em que a verdade foi renegada - sobreviver é, sim, o lucro maior; ninguém pediu pra nascer, é verdade, mas a humanidade, essa mudança inesperada no caminho do universo, preferiria viver amputada a ter de conhecer o Nada.
Nós, humanos, sabemos que sobreviver apenas é pouco, mas ainda assim teimamos em fazê-lo...
Pois sim, chegará o dia em que nós, humanos, vamos imitar aqueles bichos que optaram pela extinção. Deixaremos de procriar. Faremos sexo, ainda, mas não deixaremos nossos filhos à mera sobrevivência. Chamaremos esse altruísmo louco de eutanásia antecipada - puxaremos o fio antes do sofrimento da Vida. Infelizmente o faremos em um tempo em que a verdade foi renegada - sobreviver é, sim, o lucro maior; ninguém pediu pra nascer, é verdade, mas a humanidade, essa mudança inesperada no caminho do universo, preferiria viver amputada a ter de conhecer o Nada.
Banheiro
Todos os grandes pensadores que conheço concordam: o banheiro é o melhor lugar pra se pensar. Hoje levei meu violão ao trono e finalmente achei o porquê. A acústica é maravilhosa - os pensamentos saem, mas voltam!
(Não é como pensar a céu aberto, onde os pensamentos saem voando feito peixe-voador fora d'água...)
(Não é como pensar a céu aberto, onde os pensamentos saem voando feito peixe-voador fora d'água...)
31.12.11
Ano-novo
Pois o indignado se pergunta por que tanto escarcéu - ano-novo não é nada mais que uma data ilustrativa do esquartejamento do tempo! De nada sabe o indignado. Não acredito, contudo, nestes outros que têm a pretensão de fazerem-se absolutamente outros no novo ano que chegará. Serão outros, sim, mas outros apenas minutos mais velhos. Para mim, ano-novo é meio termo. Merece um escarcéu controlado, merece a comemoração que lhe é justa. Afinal, o céu se ilumina - nos sentidos mais e menos literais -, e o homem se propõe a olhá-lo. Enquanto vive, não olha, o céu não existe mais - só no ano-novo. E um dia em que o céu vira objeto de atenção, ainda que por no máximo 15 minutos, merece no mínimo 7 bilhões de rolhas de champagne.
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